Dia Mundial da Liberdade de Imprensa


Por Felipe Krause Dornelles, Daca (Bangladesh)

Dia 3 de maio foi o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. Confesso que nunca fui o maior fã de dias mundiais de o que quer que seja, sobretudo por conta da incessante proliferação dessas datas, o que, a meu ver, pode provocar a banalização do tema a que se pretende chamar atenção. Mas neste 3 de maio eu participei de um evento que achei marcante, não por lembrar que a liberdade de imprensa seja uma coisa importante (no mundo em que vivemos, o tema continua e continuará relevante, na ordem do dia, por um bom tempo ainda), mas pela abordagem original e instigante de um aspecto do tema que ganha uma complexidade alucinante, numa velocidade quase impossível de acompanhar: como controlar, se é que devemos controlar, o conteúdo e as atividades realizadas por meio da Internet?

O seminário, intitulado “A Mídia do Século XXI: Novas Fronteiras, Novas Barreiras”, foi organizado pela Representação da UNESCO no Brasil, em coordenação com a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República e com o Ministério das Relações Exteriores. Não cabe aqui fazer um resumo de tudo que foi discutido. Queria apenas levantar uma questão que me deixou com a pulga atrás da orelha: será que o desenvolvimento de novas tecnologias, novas formas de interação – cibernética – entre pessoas, novos meios de comunicar ideias, necessitam de uma nova estrutura ética para poder orientar, apoiar, controlar, julgar o que é apropriado e o que não é?

Quando digo estrutura ética não estou falando apenas de um aggiornamento, uma atualização de ideias antigas, já consagradas, tais como ampliação (“democratização”) do acesso e liberdade de expressão, do lado “positivo”, e regras contra a difamação, injúria, fraude, etc., do lado “negativo”. Estou perguntando se não precisamos de algo inteiramente novo, que tenha a capacidade conceitual de lidar com informações fragmentadas, com origens múltiplas e efeitos nem sempre concretos, nem sempre diretos, mas muitas vezes devastadores. Estou pensando aqui em apropriação e divulgação de informações confidenciais, inclusive fotos, sem o consentimento da pessoa ou instituição em questão, muitas vezes por empresas legitimamente estabelecidas; cyberbullying; fraude bancária; hacking, por má fé ou pura diversão; e outros novos problemas.

Minha visão das coisas pende para o libertarianismo: cada um deve fazer e falar o que bem entender, e nada, nem o estado nem muito menos algum moralismo da sociedade, deve criar entraves para o arbítrio pessoal, que é radicalmente livre. A única exceção a essa regra seria o caso em que a ação de uma pessoa ou instituição estivesse prejudicando outra pessoa ou instituição, mas mesmo assim teria de se analisar as perdas e ganhos públicos da ação inicial. Seria, portanto, um “libertarianismo democrático”, ou um “libertarianismo social”.

Tendo a ver a Internet cada vez mais livre, mais amplamente acessível, mais criativa, mais poderosa, tanto para o bem quanto para o mal. O seminário de que participei celebrava esse fenômeno libertador, os palestrantes preocupados quase que unicamente com a eliminação das barreiras, da censura, dos controles estatais. Acho que estão mormente corretos. Mas também acho que “democratização” implica responsabilidade. Assim como o libertarianismo não ocorre num vácuo, a Internet precisa ser socializada. Não estou promovendo barreiras. Talvez a melhor forma de controle seja o autocontrole, gerado por meio da educação. Em meio às transformações estonteantes por que passa a rede mundial de computadores, desconfio de pelo menos uma coisa: os nossos conceitos, as nossas ferramentas intelectuais, ainda não alcançaram o nível de sofisticação necessário à compreensão de como as novas mídias estão transformando o nosso cotidiano, e a como devemos lidar, no plano da ética, com essas mudanças.

Felipe Krause

Diplomata de profissão, cientista social de treinamento, Felipe adora artes visuais, música e literatura. Viaja muito. Inclusive na maionese. Atualmente, mora em Bangladesh, para onde foi removido pelo Itamaraty com o objetivo de reabrir a Embaixada do Brasil em Daca. Ocasionalmente, ocorre-lhe a ideia – não muito original – de algum dia largar tudo para velejar ao redor do mundo e escrever. Por enquanto, segue viajando a trabalho, sempre em busca de novas experiências e desafios…

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