Zero Hora, 14 de maio de 2011


14 de maio de 2011 | N° 16700

ARTE COLABORAÇÃO E MERCADO

Genealogia de uma criação em rede

Curadora da exposição “Agora/Ágora”, que terá lugar no Santander Cultural a partir de 26 de maio, conta o formato – inusitado – de desenvolvimento do projeto. Grande hall receberá instalação inspirada em cinema e supermercado na qual público pode comprar mantimentos

É no clima de reencontro com o público da minha terra que conto aqui como foi concebido o projeto Agora/Ágora: Criação e Transgressão em Rede. Vale lembrar que, há exatos 10 anos, tive a honra de inaugurar os espaços do Santander Cultural com a curadoria denominada Sem Fronteiras. Ecoando a ausência de limites de tempo e espaço, essa exposição ainda existe, no site http://www.santandercultural.com.br.

Naquela ocasião, a pedido da instituição, que iniciava a sua trajetória de protagonismo no meio cultural gaúcho, já defendi que a vocação daquele belo espaço arquitetônico seria exibir os novos meios de expressão artística trazidos pela eletrônica e pela internet. Afinal, as artes dos séculos passados e da era moderna estão atendidas pelo Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs) e os contornos da arte contemporânea constitui o foco do Museu de Arte Contemporânea (MAC-RS). Falta(va) uma instituição focada nos meios tecnológicos, definidora de parte significativa da cultura do século 21.

A exposição inaugural teve elenco internacional e homenageou uma das pioneiras na investigação de novos meios, Vera Chaves Barcellos. Sublinhavam-se assim os laços da arte tecnológica com a realidade cultural local, fenômeno que se amplia nas novas gerações. Não é novidade dizer que o Rio Grande do Sul é dos polos mais dinâmicos de produção de arte, logo após São Paulo e Rio de Janeiro e antes de Recife. Se considerarmos a densidade populacional, é proporcionalmente a que mais contribui com artistas.

Para esta nova curadoria, 10 anos depois, os meios tecnológicos se impuseram, em diálogo com os meios tradicionais. Fruto do acaso que Stéphane Mallarmé (1842 – 1898) aponta como indissociável do jogo de dados, o desafio foi conjugar a mostra no espaço expositivo com um conjunto de ações de viés social, disparadas de um site na internet. Um formato inédito no circuito de exposições do país.

A ideia, trazida pelo artista Rommulo Vieira Conceição, era sobrepor dois espaços e fazer dessa sobreposição o modelo irradiador de convites para o elenco de artistas. A sobreposição é o fulcro conceitual da obra SuperCinema, de Rommulo, que ancora todo projeto. SuperCinema é corajosa e provocadora de questionamentos sobre o lugar da arte no mercado e o lugar do mercado na arte.

O passo seguinte foi criar um conceito curatorial com consistência poética capaz de abranger os dois universos (real e virtual), em diálogo fertilizador. O que os une? A instantaneidade, a simultaneidade, o tempo em presente contínuo. O fascínio pelos jogos de palavras da poesia concreta deu a pista para o título Agora/Ágora. Trata-se de celebrar e também questionar o instante presente e, ao mesmo tempo, estabelecer uma plataforma de diálogo que, à semelhança da ágora grega, se constituísse em praça pública para tratar da problemática que envolve a cidadania expandida na web.

A plataforma Ágora (www.agora.art.br) inclui conteúdos informativos sobre artivismo e tecnologias sociais, com uma seleção comentada de projetos que propõem o uso colaborativo e original das redes, frisando o seu caráter propositivo e transformador. Giselle Beiguelman formulou e articulou a conceituação web do projeto, com colaborações de Juan Freire e Karla Brunet (Ativismo), Patricia Kirst (Flickr) e Alex Primo (Keynote Twitter).

A exposição propriamente dita, denominada Instantâneo/Simultâneo, reúne 14 artistas nacionais e internacionais em torno da passagem rápida do tempo sobre as coisas e o resultado disso para o entendimento do nosso mundo atual. Todas as obras escolhidas, mesmo nas mídias tradicionais (pintura, escultura, desenho), envolvem este tema ou foram feitas em meios expressivos que utilizam o tempo (filme, vídeo, fotografia, videoinstalação).

O subtítulo do projeto (Criação e Transgressão em Rede) esclarece uma das características da arte tecnológica: ela subverte a ideia do artista como criador solitário em um ateliê e o lança no mundo dos processos criativos compartilhados, em grupos aglutinados na web. Como observam Julio Plaza (1938 – 2003) e Arlindo Machado no texto Arte e Interatividade (Cadernos da Pós Graduação, Unicamp, 2000, página 23), a criação compartilhada em rede (herdeira da arte postal) problematiza “os câmbios sócio-culturais relacionados com o progresso tecnológico”. A interatividade não seria apenas comodidade técnica e funcional, porque “implica física, psicológica e sensivelmente o espectador em uma prática de transformação”.

Muitas destas características, observadas por Plaza na prática de troca de ideias artísticas via correio convencional nos anos 1970 (a chamada mail art), podem ser transpostas para a arte tecnológica do século 21, era de e-mails, sites, blogs, microblogs e ativismo em rede. Trata-se de “arte sincrônica, isto é, que explode com a ideia linear de tempo e da sucessão de ismos, escolas e tendências que faziam da arte uma expressão diacrônica”.

A arte contemporânea, ainda segundo o espanhol radicado em São Paulo Plaza (catálogo Arte Postal, XVI Bienal de SP, de 1981) surgiria em paralelo e como alternativa aos sistemas oficiais da cultura, como fenômeno crítico ao estatuto de propriedade da arte e contrário à cultura como prática econômica. “O mail artista (e o web artista, poderíamos acrescentar) estaria mais interessado no mundo dos signos e das linguagens como forma de interagir no mundo do que na manipulação de objetos”.

O legado teórico de Plaza, morto em 2003, aos 65 anos, é parceiro atemporal do SuperCinema de Rommulo e patrono do conjunto de ideias que reunimos para Agora/Ágora.

POR ANGÉLICA DE MORAES CURADORA. NASCEU EM PELOTAS, FOI CRÍTICA DE ARTES VISUAIS DE ZH E ATUALMENTE VIVE EM SÃO PAULO

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